Devida investigação criminal

Compromissos epistêmicos e probatórios na extração de dados pessoais em fontes abertas

Autores

  • Prof. Me. Anderson Pires Giampaoli Polícia Civil do Estado de São Paulo, PCSP, Brasil https://orcid.org/0000-0003-3762-6843
  • Prof. Dr. Rafael Francisco Marcondes de Moraes Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra”, Acadepol, Brasil https://orcid.org/0000-0001-6515-1692
  • Me. Roberta de Lima e Silva Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, TJSP, Brasil

DOI:

https://doi.org/10.5281/zenodo.17058359

Palavras-chave:

Devida Investigação Criminal, Epistemologia, Prova Digital, Investigação em Fontes Abertas, Cadeia de Custódia

Resumo

O presente ensaio cuida do valor probatório e epistêmico dos elementos produzidos no contexto de uma devida investigação criminal, na qual a mineração e a raspagem de dados e informações pessoais em fontes abertas (knowledge discovery databases), mormente redes sociais, colaboram com a adequada determinação dos fatos de interesse criminal e com a justificação sobre aquilo que se afirma sobre esses mesmos fatos (quaestio facti). A partir de reflexões sobre a apuração dos eventos conhecidos como ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, assim como de premissas teóricas que caracterizam o processo penal contemporâneo, a proposta consiste em balizar a utilização dessas evidências digitais, sobretudo em razão das questões jurídicas envolvidas e os reflexos no campo probatório (quaestio iuris). A metodologia adotada foi a revisão bibliográfica sistemática aliada às contribuições da epistemologia. O estudo evidenciou a relevância da formulação de protocolos e mecanismos para garantir a autenticidade e a integridade dos vestígios digitais extraídos de fontes abertas, dada a ausência de uma Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais penal. A adoção de tais medidas se apresenta como uma possibilidade para garantir a fiabilidade das provas digitais e a conformidade das investigações criminais com base em parâmetros epistemicamente orientados.

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Biografia do Autor

Prof. Me. Anderson Pires Giampaoli, Polícia Civil do Estado de São Paulo, PCSP, Brasil

Doutorando em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo. Mestre em Direito Probatório pela Universidade de Barcelona (2022). Especialista em Bases do Raciocínio Probatório pela Universidade de Girona (2021). Professor da Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra” (Acadepol).

Prof. Dr. Rafael Francisco Marcondes de Moraes, Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra”, Acadepol, Brasil

Doutor (2024) e Mestre (2018) em Direito Processual Penal pela Universidade de São Paulo (USP). Professor da Academia de Polícia “Dr. Coriolano Nogueira Cobra” (Acadepol). Graduado pela Faculdade de Direito de Sorocaba (FADI). Pesquisador Associado do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP).

Me. Roberta de Lima e Silva, Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, TJSP, Brasil

Mestranda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Mestra em Raciocínio Probatório pela Universitat de Girona (Espanha). Pós-graduada em Direito Penal Econômico pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo (2020). Especialista em

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Publicado

2025-12-04

Como Citar

GIAMPAOLI, Anderson Pires; MORAES, Rafael Francisco Marcondes de; SILVA, Roberta de Lima e. Devida investigação criminal: Compromissos epistêmicos e probatórios na extração de dados pessoais em fontes abertas. Revista Brasileira de Ciências Criminais , São Paulo, v. 211, n. 211, p. 115–141, 2025. DOI: 10.5281/zenodo.17058359. Disponível em: https://www.publicacoes.ibccrim.org.br/index.php/RBCCRIM/article/view/2067. Acesso em: 13 abr. 2026.

Edição

Seção

Dossiê: proteção de dados pessoais e ciências criminais

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