O necessário equilíbrio entre a proteção processual à vítima e o direito à prova
impressões sobre o artigo 400-A do Código de Processo Penal em casos de crimes sexuais contra mulheres
DOI:
https://doi.org/10.5281/zenodo.15367926Palavras-chave:
vítima, crime sexual, prova, admissibilidade, direito de defesaResumo
O presente artigo objetiva demonstrar que as atuais proteções processuais à vítima de agressões sexuais, ao enfatizarem a irrelevância probatória de seu comportamento sexual e social pregresso, ao passo que são importantes medidas para tutelar a dignidade da ofendida e evitar a perpetuação dos estereótipos negativos no curso do processo, não devem ser utilizadas para limitar o direito do imputado ao confronto ou remover dados relevantes à completa valoração das provas. Com base em referências bibliográficas nacionais e estrangeiras, avalia-se o posicionamento jurídico clássico utilizado como alicerce para solucionar os casos de crimes sexuais e como se espraiam as mitologias sociais e os estereótipos negativos em todos os contextos da atividade probatória. Em seguida, o estudo apresenta a reação à concepção clássica, para, por fim, ingressar no debate sobre as proteções processuais estabelecidas no artigo 400-A do Código de Processo Penal, com ênfase na (in) admissibilidade de dados potencialmente violadores à dignidade da vítima e sua repercussão no direito de defesa.
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